Sobre a Dislexia

Algumas considerações sobre a dislexia 
Se, durante muito tempo, a dislexia não era percebida com clareza por psicólogos, por neurologistas e por profissionais que atuavam na escola, hoje, esse transtorno de aprendizagem pode ser entendido, segundo Souza (2008), como um sério e grande desafio social e educacional a ser enfrentado por eles. Isso, porque — cada vez mais — diagnósticos são confirmados e novas políticas públicas de educação são aprovadas sem que informações a respeito do distúrbio sejam, amplamente, divulgadas à sociedade e métodos sejam desenvolvidos para que um ensino eficaz seja garantido para pessoas disléxicas.
Os primeiros trabalhos desenvolvidos sobre esse tema aconteceram entre os anos de 1872 e 1897, dando destaque aos pesquisadores Reinhold Berlin e Janes Kerr. Posteriormente, em 1917, uma monografia intitulada “Cegueira verbal congênita” foi desenvolvida por James Hinshelwood para suscitar discussões sobre esse fenômeno ainda desconhecido. Em sua pesquisa, Hinshelwood havia descoberto que alguns pacientes apresentavam sérias dificuldades para ler e para escrever — mesmo possuindo inteligência normal ou acima da média.
Ainda no início do século XX, conforme Kappes et al (2003), o problema não era estudado de forma atenta e minuciosa por psicólogos e por educadores, pois ambos os grupos ainda se concentravam nos transtornos da linguagem através de um viés, majoritariamente, pedagógico. A partir de 1925, quando uma pesquisa apontou um número significativo de pessoas que não conseguiam ler, escrever e soletrar com a eficácia e a desenvoltura esperadas diante dos recursos e das possibilidades oferecidas, vários autores de diferentes áreas do conhecimento, principalmente, da medicina e da biologia, começaram a estudar e a descrever esse distúrbio.
Muito tempo depois, ao longo da década de noventa, o estudo da dislexia teve, finalmente, seu primeiro terreno fértil. No Brasil, segundo Pedro (2010), foi criada, em 1983, a Associação Brasileira de Dislexia (ABD) com objetivo de esclarecer, divulgar e ampliar conhecimentos e ajudar disléxicos em sua dificuldade específica de linguagem.

No ano de 2003, depois de algumas tentativas de definir o que seria de fato o transtorno, o Annals of Dyslexia, elaborado pela Associação Internacional de Dislexia (IAD), propôs uma definição pontual: trata-se de uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica. É caracterizada pela dificuldade com a fluência correta na leitura e pela complicação na habilidade de decodificação e de soletração. Essas dificuldades resultam, tipicamente, do déficit no componente fonológico da linguagem, o que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas consideradas na faixa etária (Pedro, 2010).

 

Em palavras mais simples, a dislexia é um problema neurológico caracterizado pelo prejuízo na leitura de palavras comuns, frequentemente, envolvendo déficits na decodificação dos sons. É hereditária e compromete elementos subjacentes à leitura e à escrita, como, por exemplo, a atenção, a habilidade narrativa, a velocidade de leitura, a capacidade de desenvolver temática e coerência textual, entre outros. (Machado & Capellini, 2011; Souza, 2008).

 

A dislexia pode ser adquirida — quando surge na sequência de traumatismo ou lesão cerebral, ou de desenvolvimento — perturbação ou atraso na aquisição da leitura e atividades que dependem dela (Carreteiro, 2009).

 

Os sintomas referentes à linguagem apresentados por pessoas disléxicas, conforme ABD e outras instituições brasileiras que se dedicam ao tema, são: (1) atraso na aquisição das competências de leitura e escrita; (2)confusão entre letras, sílabas ou palavras com diferenças sutis de grafia (a-o; c-o; e-c; f-t; h-n); (3) confusão entre letras, sílabas ou palavras com diferenças espaciais sutis (b-d; d-p; d-q); (4) substituição de palavras por outras de estrutura similar, porém com significado diferente (salvou-saltou); (5) adição ou omissão de sons, sílabas ou palavras (famosa — fama; casaco — casa); (6) problemas de compreensão semântica; (7) ilegibilidade da escrita, letra rasurada, presença de muitos erros ortográficos e redação com ideias desordenadas; (8) possibilidade de leitura a partir de espelho; (9) baixa compreensão leitora; (10) erros ortográficos naturais ou arbitrários.

 

Além do diagnóstico da pessoa com dislexia apresentar essas características, é possível observar também a dificuldade de memória, os problemas em nível de motricidade fina, problemas na percepção espacial, problemas na organização espaço-temporal, déficit de atenção (com ou sem hiperatividade), desorganização e pouca vontade de empenhar-se na escola ou no trabalho.

 

Todos esses sintomas interferem, nitidamente, no rendimento escolar ou nas atividades da vida diária que exigem a leitura. Diante dessa lista de sintomas e graves consequências geradas, cabe salientar que, de acordo com Bonini et al (2010), a dislexia não é resultado de alfabetização deficitária, de desatenção proposital, de desmotivação individual, de condição socioeconômica desfavorável ou de baixa inteligência.

 

A dislexia e sua vasta série de complicações podem provocar comportamentos interiorizados — medo, ansiedade, passividade — ou exteriorizados, como a agressividade. (Knivsberg e Andreassen 2003 apud Carreteiro 2009). É comum que o disléxico sinta-se nervoso diante de uma situação em que possa vir a mostrar que possui uma imensa dificuldade em realizar determinadas tarefas. Por essa razão, cria também mecanismos de defesa, desenvolvendo estratégias que o ajudam, de forma inadequada, a mascarar o problema (Bonini et al, 2010).

 

Por estarem diante de desafios que não podem ser totalmente superados, disléxicos podem ter uma visão muito negativa a respeito de si mesmo, visto que começam a se ver como fracassados em uma prática julgada como importantíssima para a sociedade. Isso justifica o fato de a depressão ser também outra comorbidade frequente à dislexia, mostrando que o emocional está intimamente ligado às questões de sucesso e insucesso diante de avaliações sociais formais ou informais (Carreteiro, 2009; Bonini, 2010; Frank, 2003).

 

De acordo com Frank (2003), a dislexia pode gerar experiências, terrivelmente, dolorosas, pois é comum também o esquecimento de acontecimentos passados e questões simples, como o sobrenome de uma pessoa próxima e a pronúncia de uma palavra. Fatos como esses podem levar o disléxico à vontade de fuga e ao sentimento de vergonha, isolando-se do convívio social. Sob essa perspectiva, a dislexia passa a ser não apenas um problema de leitura, mas configura também um quadro que se estende nas relações pessoais, na administração do tempo, no olhar que o indivíduo lança sobre si mesmo e sobre a comunidade onde habita.

 

A baixa-estima em um indivíduo disléxico deve ser observada com a atenção necessária, pois, quando o disléxico consegue acreditar no seu potencial e começa a tentar driblar suas dificuldades, ele pode, de forma muito positiva, superar e desenvolver habilidades que podem livrá-los de boa parte de possíveis frustrações. Entretanto, segundo Carreteiro (2009), questões de natureza emocional, às vezes, são encaradas em um quadro clínico como secundárias e não com a importância que realmente têm. Dessa maneira, não se torna possível reparar futuros problemas no âmbito social, escolar e até profissional da pessoa com dislexia.

 

De acordo com Braggio (2006, p.4), muitas são as formas que fazem um professor ajudar um aluno disléxico. Entre elas, estão: (1) tratá-lo com naturalidade; (2) usar linguagem direta, objetiva e clara, evitando metáforas e analogias abstratas; (3) trazê-lo para perto; (4) certificar-se, de modo discreto, de que as instruções dadas foram compreendidas; (5) observar se há integração entre o aluno e seus colegas de turma, trabalhando para que essa seja uma relação saudável; (6)sugerir atalhos, dicas, “jeitos de fazer” por associações; (7) não colocá-lo em situações difíceis perante a turma — ler em voz alta, por exemplo; (8) incentivá-lo, fazendo-o acreditar em si; (9) sugerir o uso de instrumentos que possam facilitá-lo como calculadoras, gravadores, aparatos tecnológicos.

 

Fora da sala de aula, o disléxico desenvolve seu tratamento em consultórios de psicologia, de psicopedagogia, de fonoaudiologia e, quando necessário, de psiquiatria. Segundo Moojen (2004), a intervenção dos profissionais dessa área varia conforme o nível de dislexia de cada paciente. Eles podem atuar não só visando à melhoria do sistema motivacional do disléxico, favorecendo um controle emocional maior, como também mediando o relacionamento entre escola — família, disléxico — família. No campo dos déficits específicos da dislexia, o fonoaudiólogo e pode melhorar a capacidade de o disléxico operar com as regras que relacionam fonologia, ortografia e compreensão de textos. Normalmente, disléxicos também fazem acompanhamento com professores particulares que o auxiliam na organização de tarefas e de deveres de casa.

 

Quanto mais cedo for diagnosticado e quanto maior for o somatório de esforços entre as pessoas que acompanham o disléxico, maiores são suas chances de obter sucesso e ultrapassar barreiras e dificuldades. Por essa razão, quanto mais atentos e mais informados estiverem pais e professores, contando com atuação responsável e assídua de uma equipe da área da saúde, menos impacto o distúrbio terá em nossa sociedade.

 

Referências Bibliográficas

BONINI, FV et al. Problemas emocionais em um adulto com dislexia: um estudo de caso. Revista Psicopedagogia 2010; 27(83): 310–22

BRAGGIO, Mário Angelo A Inclusão do Disléxico na Escola. Disponível em: <http://dislexia.org.br/materia//estudantes/inclusao_dislexico doc) Acesso em: 08 out 2012

CARRETEIRO, Rui Manoel. Dislexia: uma perspectiva psicodinâmica. Disponível em: <http://psicologia.com.pt/artigos/textos/A0481.pdf >Acesso em: 08 out 2012

FRANK R. A vida secreta da criança com dislexia. São Paulo: M. Books do Brasil; 2003.

KAPPES, Dany et al. Dislexia. Disponível em: http://www.profala.com/artdislexia18.htm. Acesso em: 10 jun. 2012.

MACHADO, AC; CAPELLINI, SA. Caracterização do desempenho de crianças com dislexia do desenvolvimento em tarefas de escrita. Revista Brasileira Crescimento e Desenvolvimento Humano. 2011; 21(1): 132–138.

MENDES, Talita Rosetti Souza. Narrativas de experiências de jovens universitários com dislexia: construções de si e do outro nos contextos da escola e da família / Talita Rosetti Souza Mendes ; orientadora: Maria das Graças Dias Pereira. — 2013.195 f. Dissertação (mestrado) — Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Letras, 2013.

MOOJEN, Sônia Maria Pallaoro. O papel do fonoaudiólogo/psicopedagogo e da escola na dislexia.

Disponível em: <http://www.cin.ufpe.br&gt; Acesso em 10 out 2012.

PEDRO, Danielle Leporaes. O estado e a família: organização, processos e metodologias no atendimento ao portador da dislexia e sua inclusão social. 2010. 55 f. Monografia (PósGraduação) — Departamento de Letras Pedagogia, Candido Mendes, Rio de Janeiro, 2010.

SOUZA, Elizete Cristina de. O disléxico no processo de ensino-aprendizagem. Revista Contrapontos. v.8, n.3, p.423–432 set/dez. 2008

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